
Oi.Bom,a melhor coisa para sarar uma eventual crise de identidade,que às vezes todos nós estamos à mercê, é pesquisar sobre sua vida antes mesmo dela existir.Não,não estou dizendo sobre regressão e vidas passadas. Mas sobre o passado daqueles que te deram a vida.Mamãe não gosta muito de falar do que se passou.Nunca gostou.Ela é adepta da filosofia: vivo o hoje,espero um amanha melhor, e o que passou passou, acabou.Eu que sou um tanto quanto saudosista fico irritada às vezes.Então,adoro mexer nas coisas d mamãe,fotos,bilhetes,objetos,e principalmente as cartas. E foi numa dessas minhas procuras ao meu tesouro ancestral oculto e preservado,que encontrei uma carta da minha tia para mamãe com trechos de um livro chamado A Vagabunda, de Gabrielle S. Colette, uma escritora francesa da primeira metade do século XX, que eu não conhecia e agora quero muito ler e conhecer.Achei o trecho oportuno e resolvi publica-lo como meu 1°post nesse bog.
"(...)escrever! poder escrever! isto significa o longo devaneio diante da folha em branco, o rabiscar inconsciente, o brincar da pena que gira em torno do borrão de tinta, que mordisca a palavra imperfeita, enche de garras, de flechazinhas, orna-a de antenas, de patas, até que ela venha a perder a sua figura legível de palavra, metamorfoseada que foi em fantástico inseto, borboleta-fada que alçou seu vôo. escrever. .. É o olhar fixo, hipnotizado pelo reflexo da janela sobre o tinteiro de prata, é a divina febre que assoma às faces, à fronte, enquanto uma bem-aventurada morte gela sobre o papel a mão que escreve. É também o pleno olvido da hora, a indolência no macio diva, essas bacanais do espírito inventivo donde saímos curvados, embrutecidos, mas já recompensados, mensageiros dos tesouros que, sob o pequeno círculo de luz que a lâmpada descreve, serão entornados na página virgem ... escrever! tentação de purgar raivosamente tudo de mais sincero que nos vai pela alma adentro, e rápido, com aquela rapidez que faz a mão relutar e protestar contra o deus impaciente que a guia. .. depois encontrar, no dia seguinte, em vez do ramo de ouro, miraculosamente desabrochado na hora flamejante, um espinheiro seco, uma flor abortada. . escrever! gozo e sofrimento dos ociosos! escrever! . . . bem que experimento, de tempos em tempos, essa necessidade, intensa como a sede no verão, de anotar, de exprimir... e pego então da pena, para dar início àquele jogo perigoso e traiçoeiro que, através do bico duplo e flexível, apanha e fixa o mutável, o fugaz, o apaixonante adjetivo... mas não passa de uma curta crise, prurido de uma velha cicatriz. .(..)"




1 comentários:
que belíssimo texto esse da Sra.Colette; também não conhecia mas, pela forma que ela descreveu a tão indescritível arte de escrever, vale muito a pena ir atrás de seus textos.
e belo blog! na condição de dono de um, recomendo a você mantê-lo - é uma das coisas mais gratificantes e mágicas para nós, amantes da escrita ;)
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